Quem se condiciona a viver na malfadada zona de conforto, pode ser comparado a um animal mantido em cativeiro, que ao ser solto em seu habitat natural, não sabe mais utilizar seus instintos e sua força para sobreviver. É facilmente abatido por predadores porque desaprendeu a lutar.

“A vida começa no final de sua zona de conforto” (Neale Donald Walsch)

 Antes de mais nada, quero dizer que não concordo com o termo “zona de conforto”, tão utilizado na administração, psicologia e tantas outras ciências humanas. Por se tratar de uma série de comportamentos, pensamentos e ações que nos castram a criatividade e a força de irmos além de nossos limites, acredito que a nomenclatura “zona de desconforto” seria mais adequada. Apesar de gerar uma suposta condição de segurança, a tal região mental traz consigo danos psicológicos difíceis de recuperar.

Condicionar a mente na zona de conforto nos equipara aos pobres animais que vivem em cativeiro. Eles são alimentados diariamente e passam a vida confortáveis em suas celas, sem exercitar seus instintos de sobrevivência e até seus músculos. São, comumente, estressados e preguiçosos. E dependendo do tempo em que passam nesta condição, o retorno para o habitat natural – quando ocorre –  poderá lhes ser fatal. Eles desaprenderam a lutar.

Conosco não é diferente. Se estamos condicionados ao confortável, somos animais no zoológico. Em nossa vidinha pacata, não existem desafios, não somos exigidos, não superamos nossas limitações. E quando, por algum motivo, nos vemos obrigados a deixar tais condições, entramos em pânico, porque desaprendemos (ou nunca aprendemos) a lutar. 

Estar confortável não é bom?

É conveniente entender que a zona de conforto é um espaço psicológico, delimitado por nossa experiência atual, ou seja, tudo é conhecido, tudo é controlável. Ao sair desses limites, temos a impressão que vamos entrar em uma região de monstros mitológicos, que vão drenar nosso sangue para utilizá-lo em rituais de sacrifício. Na verdade, entramos na estimulante zona de aprendizagem, onde vamos obter novos conhecimentos, novas habilidades, nova visão da vida.

Naturalmente, é importante mencionar que muitas pessoas têm a segurança como um dos seus pilares de valores. Isso significa dizer que não gostam de correr riscos, que não querem preocupações com nada mais além de sua estabilidade física e emocional. Não sentem nenhuma necessidade de algo mais, não têm maiores aspirações (sonhos, metas, projetos), não se incomodam em fazer apenas o básico para sobreviver. Vivem em um ambiente sem ameaças.

O problema neste tipo de ideologia de vida está, justamente, quando as circunstâncias obrigam a tomar atitudes diferentes. Você já deve ter ouvido o velho ditado que alerta o inevitável: nada é para sempre! Mais cedo ou mais tarde, surge a necessidade de se superar, de libertar o leão que viveu a maior parte de sua vida em uma jaula. Torna-se uma questão de matar ou morrer.

A eterna luta entre a Dor e o Prazer

Como já foi explicado por Anthony Robbins, o ser humano tem duas premissas básicas: buscar o prazer e afastar a dor. Quando evitamos fazer algo que, supostamente, nos causa dor, temos a ilusão de que estamos obtendo prazer (a ausência da dor). Na verdade, estamos alimentando um monstro que pode se manifestar como ansiedade, depressão, frustração ou outro sentimento igualmente destrutivo.

Ausência de dor não é prazer!

Ao evitarmos fazer algo que nos cause desconforto, descartamos as possibilidades de crescimento. Não aprendemos, não desenvolvemos. Continuamos a obter o mais do mesmo. Quais as consequências para alguém que mantêm um relacionamento cancerígeno, mas o suporta pelo medo da solidão ou até mesmo (pasmem) pela redução de estilo de vida (material, status, etc.)?

E o que acontece com uma pessoa que é talentosa em alguma área (artística, por exemplo), mas não se sente bem com as possíveis críticas e prefere passar sua vida fazendo o que não gosta, apenas pela segurança?

Os exemplos são incontáveis.  É preciso entender que a dor é inevitável, seja por deixarmos uma situação confortável para enfrentarmos os conflitos, seja por que não mexemos nossos traseiros do lugar. De alguma forma, sentiremos dor. O que faz a diferença são os resultados obtemos.

Como costumamos amenizar a dor?

Tudo aquilo que nos causa mal-estar, medo, receio e sofrimento, dispara um alarme de proteção interno. É melhor você não ir por esse caminho se não quiser ter aborrecimentos. Uma sirene fica alarmando em nossa mente até tomarmos a decisão de recuar. De imediato, sentimos um alívio, que não vai durar muito tempo. É como o efeito do crack.

Atenção: o autor nunca consumiu a droga mencionada e não recomenda ninguém a fazê-lo.

Quando não se enfrenta uma situação de conflito, gera a necessidade inconsciente de sentir prazer. Apenas se afastar da dor não é suficiente. É preciso obter um sentimento de satisfação, para justificar a decisão de se manter no conforto de sua zona sem perigos.

Existem diversas formas de compensação: compras excessivas, sexo, álcool, vício em rede sociais, pornografia e comida são apenas algumas mais utilizadas. Ao lançar mão dessas alternativas, a pessoa procura substituir o prazer que não obteve ao evitar o conflito. Em seu entendimento, a dor foi evitada e o prazer alcançado. De certa forma, é exatamente o que acontece, mas o preço que se paga é bem salgado?

Como vencer o medo?

Eu tinha um pavor mortal de dentista. Sentia medo até de passar na frente do consultório. Me causava arrepios só de ouvir o monstruoso ruído da broca. Me remetia ao clássico filme O Massacre da Serra Elétrica. Tenho lembranças de uma simpática e (muito) paciente profissional da área, pedindo ajuda a dois leões de chácara para segurar um moleque mirrado e cabeçudo, que se debatia na cabeira até quando ela usava o espelhinho. O cabeçudo é este que vos escreve.

Com o passar do tempo, e alguma lacunas na minha arcada dentária devido a perdas permanentes, percebi uma coisa: o medo da dor é pior que a própria dor. Conforme ficava rapazinho, alimentado pela máxima machista na qual afirma que homem não chora, entendi que o diabo não é tão feio quanto pintam.

Eu tinha que escolher entre conviver com dentes cariados e apodrecidos ou enfrentar a dor mortal de realizar uma obturação. Felizmente, optei pela segunda opção. Como não era dotado de nenhuma beleza física, me assustei ao imaginar que seria bem pior se eu tivesse um sorriso esburacado.

No decorrer das consultas, mais relaxado, percebi que não havia dor insuportável. Claro que uma ou outra “cutucada” atingia a alma, mas nada que não pudesse aguentar como um verdadeiro guerreiro. Muitas vezes, após o procedimento, a gentil dentista perguntava: e aí, doeu? Geralmente, a resposta era negativa.

Nota: a princípio, eu optava por ser atendido por mulheres, para inibir o comportamento de mocinha chorona e prevalecer o machão latino. Tempos depois, não precisei mais desta estratégia.

Você pode usar essa história como referência para sua vida. O que te causa medo? Esse medo tem fundamento lógico? Quais serão as consequências ao evitar um conflito? Que estratégias você pode utilizar para superar uma limitação que o paralisa?

Não há alternativa mais eficiente para vencer o medo do que enfrentá-lo. O que pode acontecer se eu fizer isso? E se eu não fizer, onde vou chegar?

Tudo é uma questão de adaptação

Nós não saímos da zona de conforto. Nós a expandimos. Sempre haverá um espaço mental em que nos sentiremos confortáveis. Se hoje você tem medo de falar em público e amanhã dá uma palestra para centenas de pessoas, na maior tranquilidade, o que lhe causava medo, se tornou confortável. Nós nos adequamos às situações, mesmo àquelas que nos causavam receio.

No maravilhoso filme Náufrago (Cast Away, 2000), brilhantemente interpretado por Tom Hanks, o personagem passa quatro anos em uma ilha deserta, privado de qualquer regalia do mundo moderno. A princípio, prevaleceu a dor, como não poderia deixar de ser. E o que aconteceu depois de um certo tempo? Nota dez para quem falou ele se adaptou! É exatamente o que acontece com qualquer um de nós. Vamos nos moldando às novas situações e, sem perceber, já não sentimos mais a dor do início.

Nota: uma das cenas finais, mostra como foi poderosa a adaptação do personagem. Após ser resgatado, já em um confortável quarto de hotel, ele manteve o hábito de dormir no chão.

Não estou sugerindo que você passe necessidades, que arranque um dente com patins, que more em cavernas ou drible a solidão conversando com uma bola de vôlei. O que eu quero ressaltar neste texto é que podemos superar nossas limitações e medos dando um passo (um que seja) em direção ao que mais tememos.

Conforme percebemos que somos capazes de enfrentar o que nos incomoda, vamos fortalecendo nossa coragem, nos adequando a uma realidade muito mais rica que a anterior. E não importa se falhamos uma vez ou outra. Como diria Raul Seixas em um dos seus clássicos: tente outra vez.

Se alguém já foi capaz de realizar, você também pode. Cada decisão que você toma na vida, inclusive a decisão de não tomar decisão, lhe conduz a um destino (ou resultado). Resta saber se é destino que você quer chegar. Se for, ótimo. Se não, pense bem antes de segui-lo. E não se preocupe, nunca é tarde para pegar a estrada certa.

Você merece uma vida de vitórias e realizações. Uma vida de paz de espírito e equilíbrio. Aliás, nós todos merecemos. Então, faça um favor a si mesmo: liberte o leão que habita em você.

fonte: http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/por-que-a-zona-de-conforto-pode-destruir-sua-vida-e-o-que-fazer-para-escapar/99103/

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