01/ago/2011
- Grant Morrison | Declaração sobre criadores
do Superman cria polêmica
Autor está sendo
chamado de boneco da DC Comics
Érico Assis
Um trecho do livro Supergods,
que Grant Morrison acaba de lançar nos EUA e no Reino Unido, está provocando
polêmica entre historiadores dos quadrinhos e fãs
do escritor escocês. É o momento do livro
em que Morrison fala de Jerry Siegel e Joe Shuster, os
criadores do Superman.
Morrison escreveu que Siegel e Shuster venderam em 1938
sua criação à National Publications
(futura DC Comics) por apenas 130 dólares, fato
bem conhecido. Na interpretação do autor,
porém, fizeram isto porque "estavam criando
um produto para vender" e "imaginaram que poderiam
criar mais e melhores personagens". Além disso,
que só teriam revoltado-se contra o injusto valor
pelo personagem em 1946, "quando perceberam quanta
grana sua criação estava arrecadando".
O escritor ainda compara-os
a Bob Kane, co-criador do Batman, que teve remuneração melhor e participação
nos lucros com o personagem. Morrison diz que Kane tinha "mais
cabeça para negócios".
O primeiro a revoltar-se
contra as declarações
de Morrison foi o crítico de quadrinhos Abhay Khosla,
que diz que Morrisson não reconhece vários
fatos documentados em torno da venda de Siegel e Shuster à National
- fatos que, na visão de Khosla, comprovam que os
criadores foram passados para trás. E complementa
que este "esquecimento" de Morrison é interesseiro:
serviria à DC Comics no processo que a editora atualmente
enfrenta, movido pelos herdeiros de Siegel e Shuster.
Khosla também lembra que Morrison tem "participação
num projeto que pode ter sido designado para que sejam
reduzidas as chances dos pais corporativos do Superman
terem que dar dinheiro aos herdeiros de Siegel e Shuster".
Ele se refere à reformulação do herói
para o relançamento do Universo DC, que acontece
em setembro. É Morrison quem está trabalhando
na nova Action Comics, que muda detalhes da origem do personagem.
"Acho que tive sorte de crescer numa época
em que as pessoas que faziam quadrinhos buscavam outros
rótulos que não 'marionete corporativo'",
ataca Khosla.
Mas a crítica mais contundente e irritada vem do
respeitado historiador dos quadrinho Paul Gravett. Em uma
resenha do livro em seu site pessoal, Gravett mostra erros
de Morrison - como, por exemplo, que Siegel e Shuster já haviam
manifestado-se em 1938 contra o contrato de Superman, e
não só na década seguinte - e também
levanta a suspeita de que Supergods seja parte de uma estratégia
da DC Comics de minar os herdeiros de Siegel e Shuster.
"Morrison prefere elevar o super-herói a um
conceito indestrutível, quase uma entidade independente,
auto-efetivada, reconhecendo apenas por cima o lado mais
comercial e sujo, maquiando a exploração
reinante, hoje e sempre, no mercado", escreve Gravett. "É por
isso que ele decide escantear ou ignorar o motivo pelo
qual eles devem sobreviver - a necessidade que têm
de sempre gerar mais e mais dinheiro para seus proprietários
corporativos e acionistas, sendo uma percentagem arrecadada
pelos operários leais, como ele, que de alguma forma
conseguem fazer eles vender."
A relação com a reformulação
DC também parece clara para Gravett: "É mais
do que coincidência, e do que um anúncio sincronizado,
que a história de Morrison e a do Superman encontrem-se
ao final do livro, quando Morrison é contratrado
pelos tesoureiros da Desesperada Corporação
para relançar sua Supermarca em setembro, numa nova
Action Comics 1." As elocubrações de
Gravett vão ainda mais longe, considerando Supergods
parte de um rebranding geral do Superman que o prepara
para seu novo filme.
Até o momento, Morrison não se pronunciou
quanto às críticas ao livro.